sábado, 13 de abril de 2013
quarta-feira, 10 de abril de 2013
sábado, 6 de abril de 2013
ALICE UNDERGROUND, MAS NEM TANTO ASSIM...
“e sempre que
a historia
esgotava os
poços da fantasia...”
Lewis Carroll
A peça “Alice Underground” com temporada exibida no Teatro
Eva Hertz na Livraria Cultura do Shopping Rio Mar, em Recife, merece algumas considerações.
A primeira delas está no mérito do esforço em trazer ao
público uma releitura dos clássicos Alice no País das Maravilhas e Alice
através do espelho, de Lewis Carroll, escritor inglês do século XIX, e propor
uma dose de ousadia, marcadamente em sua trilha sonora. No entanto, alguns
graves deslizes ofuscaram o potencial da proposta.
De modo geral, observamos uma notória dificuldade em romper
a cotidianidade e explorar a dimensão fantasiosa. Dimensão essa presente no
texto e citada nas falas iniciais que introduzem uma perspectiva nonsense e existencialista que,
lamentavelmente, não se configuraram na maior parte das cenas seguintes,
marcadas por certa banalização do hiper-real, que reduzido de modo racional e
preconceituoso, cai em um inevitável senso comum do proposto alter (outro). Não se olha o outro que
se sugere haver em sua multiplicidade de possibilidades, mas ratificam-se
estereótipos de comportamentos alternativos.
Vale destacar a pobreza do texto indicadora de uma
superficial leitura dos originais de Lewis Carroll. Para subverter ou para
interpretar livremente parece-nos ser fundamental dominar o texto original,
adentrar na experiência e “atmosfera” literária, potencializando-as no gestual
que, em muitos casos, tem mais força que o próprio texto. Parece-nos ainda, que
nos momentos de menor ênfase nas falas chegava-se ao tempo forte de expressão
artística, não cotidianizada.
Considerando-se que não se tratou de uma comédia, fora o
riso, o texto e as interpretações não provocaram espanto, inquietação.
Infelizmente, a dimensão de submundo (underground) não foi representada,
tampouco a loucura e o lúdico, trazendo muito mais clichês e mesmices.
Um detalhe a parte, e lamentável, foi a falta de gestão
administrativa do teatro Eva Hertz que vendeu ingressos até depois do inicio da
apresentação provocando um inconveniente abrir e fechar de portas que retirava
a atenção dos presentes. É lastimável que o público não seja pontual e se
adeque minimente às condições de um local coletivo de expressão artística que
exige concentração e rupturas como é próprio do espaço teatral.
Natalia Barros e
Francisco Cavalcanti – 06/04/13
sexta-feira, 5 de abril de 2013
NOTAS SOBRE A 47ª REUNIÃO DA CPI DO TRÁFICO DE PESSOAS NO BRASIL E O ENFRENTAMENTO AO TRÁFICO DE PESSOAS EM PERNAMBUCO
A
Audiência Pública da Comissão Parlamentar de Inquérito - CPI do Tráfico de
Pessoas no Brasil realizada na ALEPE (Assembleia Legislativa de Pernambuco) durou
quase cinco horas. Procuradoria Regional do Trabalho, Secretaria de Defesa
Social, OAB, Conselhos Tutelares, entidades civis organizadas e o Núcleo de
Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas de Pernambuco foram ouvidos pelos
deputados. Investigar as redes de tráfico e indiciar, via Ministério Público,
os criminosos e aperfeiçoar a legislação são objetivos a serem alcançados até
agosto de 2013. O foco são os crimes cometidos entre 2003 e 2011. Esta foi a
47ª reunião da CPI , que foi instalada em 03 de abril de 2012.
Muito
antes da novela de Glória Peres, exibida pela Rede Globo, o problema do tráfico
de seres humanos já preocupava os poderes públicos. É uma das modalidades de
crimes mais lucrativos na contemporaneidade, perdendo apenas para o tráfico de
drogas e de armas. Os dados indicam que mais de 3 milhões de pessoas são
traficadas por ano em todo o mundo. Em
Pernambuco, segundo dados apresentados pela Polícia Federal, 35 inquéritos
foram abertos para investigar possíveis
casos ligados a este tipo de crime. No
Brasil, há 40 mil crianças e adolescentes desaparecidos. Entre 2011 e 2012,
3.200 pessoas desapareceram em Pernambuco. Quantas delas podem ter sido vítimas
do tráfico? Quantas investigações foram aprofundadas seriamente? Como
Universidade e entidades civis podem contribuir na redução destes números?
Tráfico
de crianças para fins de adoção ilegal, tráfico de mulheres e travestis para
exploração sexual, tráfico de pessoas para trabalho ilegal e/ou assemelhado a
escravidão, tráfico de órgãos e tecidos humanos são algumas das modalidades
criminosas tipificadas. Pernambuco, no bojo do crescimento econômico, não
acompanhado de políticas sociais adequadas, tem mudado o perfil na rede
criminosa. Além de rota do tráfico, nosso estado é destino. A Procuradora Regional
do Trabalho, Débora Tito, por exemplo, elencou vários casos de empresas
autuadas por trazerem trabalhadores de outros estados e os manterem em
condições degradantes de trabalho. Sem falar dos vários casos de tráfico
interno de mulheres vindas de cidades do interior e/ou de outros estados para
serem exploradas em casas de prostituição na capital.
O
tráfico de Pessoas é um crime invisível e complexo para a justiça e demais
autoridades. O desafio é a integração real das políticas e agentes públicos. A
solução é a prevenção, a implantação de melhorias sociais, de educação pública
de qualidade e, claro, a dura punição dos criminosos. O Núcleo Estadual de
Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, criado desde 2008, é uma parte importante
nestas políticas. Tem como missão fazer o trabalho de prevenção, atender as
vítimas e encaminhá-las as instâncias competentes. O Comitê de Enfrentamento ao
tráfico (CEETP), com representantes de várias secretarias estaduais e
municipais, além de representantes da universidade e demais setores da
sociedade civil exerce também um papel relevante, monitorando e assessorando as
políticas públicas no combate ao tráfico de pessoas em Pernambuco.
A
UFPE participa deste Comitê e tem contribuído com pesquisas e cursos neste
campo, com destaque para a brilhante colaboração de minha colega, representante
titular no CEETP, Professora Doutora Fátima Lucena (Departamento de Serviço
Social/ Comissão Dom Hélder Câmara de Direitos Humanos/ Especialização em
Direitos Humanos- UFPE).
Represento
a Universidade Federal de Pernambuco no Comitê Estadual de Enfretamento ao
Tráfico de Pessoas e estive presente na 47ª Audiência Pública da CPI do Tráfico
de Pessoas no Brasil realizada em Pernambuco em 04 de abril de 2013.
Professora Natália Barros (Centro de
Educação/Colégio de Aplicação/ Vice- Coordenadora da Especialização em Direitos
Humanos da UFPE)
natibarros1@yahoo.com / 8762-3430
sábado, 26 de janeiro de 2013
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Outras escritas
Ele não sabia por onde começar. Rodopiando pela casa, entrava nos quartos,
ia pra varanda, voltava pro quarto e nada acontecia a não ser aumentar o
desespero. Olhava o vai e vem dos carros na avenida e até achou graça numa
motorista bem estressadinha que não parava de businar para o carro da frente,
lembrou que ele sempre fazia isto, porque sempre estava atrasado e, certamente
hoje não seria diferente. Estava quase na hora do encontro e não tinha a menor
idéia do que ia vestir, que sapato e cinto usar, e pior, do que ia conversar
com aquela mulher que nem conhecia. Quer dizer, mais ou menos não conhecia,
pois, já havia cerca de seis meses que religiosamente se comunicavam pela
internet, praticamente estavam namorando. Não fazia cerimônias em dizer que era
um homem comprometido.
Na redação do jornal onde
trabalhava, todos notaram que seus artigos sempre tão hostis com as mulheres tinham mudado de
tom. Aliás, hostil é um eufemismo, eram verdadeiras bombas anti-woman aquilo. “Porque
as mulheres, estas exploradora... porque as mulheres, estas consumidoras
inveteradas... porque o mundo seria melhor sem shopping-centers, sem o salão de
beleza e sem a academia de ginástica, fábricas de queimar dinheiro dos maridos...”
Inclusive, foi exatamente por conta destes artigos que escrevia que conheceu a
internauta que estava agora remexendo o seu coração. Ela havia enviado um
e-mail bem desaforado tomando as dores das herdeiras de Eva, exigindo que ele
se retratasse com as leitoras, pois há muito ser mulher não era aquilo que ele
insistentemente mostrava em sua coluna; não era possível que um homem
inteligente como ele continuasse com aquela imagem do feminino! E foi e-mail
pra cá, xingamento pra lá, até que os tons dos e-mails aos poucos foram se
tornando mais especulativos. Você é
casado? E você? Faz tempo que está sem namorada? Já ouviu a nova música do
Lenine? Pronto! Cupido atingiu
aqueles corações.
Agora, depois de todas as juras de
amor chegava o grande dia de se encontrarem, se tocarem, se beijarem, mas, o frio
na barriga desde o começo da manhã não o deixava em paz. Será que ela é bonita?
Tinham combinado de não enviar fotos. Afinal, poderiam não ser fotogênicos, ou
poderiam enviar fotos de outras pessoas, nunca se sabe. Preferiram evitar a
aparência como tempero do amor. Mas agora, os pensamentos vinham aos turbilhões
lhe perseguir: e se ela quisesse casar logo? E como seria a família dela? E os
amigos? E se ele gostasse só dela e não do pacote familiar que viesse junto? Olhava
os ponteiros do relógio e simplesmente ficava desesperado. Achava melhor ir
antes olhar o e-mail, talvez ela tivesse tido algum problema e não pudesse ir.
Foi para o computador e já eram quase
nove horas.
Ela vinha pelas ruas a todo vapor,
se espremendo por entre as pessoas, atravessando a rua como um foguete, quase
sendo atropelada, detestava atraso. Ela tinha acertado o horário do encontro e
escolhido o local. Iam encontrar-se em uma grande livraria, seu lugar predileto.
Adorava ficar lá horas a fio viajando sem sair do chão. Gostava do cheiro dos
livros novos, de olhar as capas, ler os agradecimentos, roçar as páginas em
suas mãos. Deve ter sido este amor aos livros que lhe fez ser bibliotecária. Não
pensemos naquela imagem já batida de mulher de óculos, casaquinho e cabelos
maltratados atrás de um balcão. Ela gostava de cuidar-se, sempre de cabelos
curtos e pintados, não abria mão de batom e rímel
na bolsa. Não era destas mulheres que vivem no mundo da lua. Era muito
decidida, gostava de ousar, talvez por isto estivesse indo agora encontrar este
homem que a princípio não suportava.
Estava sentindo-se uma adolescente,
apesar dos quase quarenta anos bem conservados, diga-se de passagem. Ficou o
dia todo pensando como seria aquele encontro. Como de costume, foi ao trabalho
naquele dia. Não ouviu nenhuma gracinha dos colegas, pois, era alguém que
respeitavam, embora já soubessem que andava inventando
estas histórias de namorar gente pela internet,
como ela mesma dizia. Trabalhava numa
grande biblioteca, já tinha namorado alguns colegas e também namorou alguns
usuários. Mas, não sabia explicar, logo o interesse passava, e então preferia
ficar sozinha mais uma vez. Não tinha problemas com a solidão. Sempre encarou
os momentos que estava sem namorado como oportunidades de experimentar prazeres
um pouco egoisticamente, como por exemplo, poder escolher o filme que ia assistir
no multiplex sem ter que abrir mão
dos filmes românticos pelos de aventura ou ficção (em geral, os preferidos dos
homens), comer a pizza do sabor que bem entendesse e tomar sorvete sem estar
muito preocupada com os quilinhos a mais que inevitavelmente viriam junto com
aqueles pequenos prazeres.
Notou que já eram quase nove horas,
a livraria estava cheia. Estava perdida em pensamentos fazia algum tempo e nem
notou se havia entrado alguém com cara de namorado virtual. Aproveitou então e foi a seção de DVDs, há tempos que queria comprar o do
show do U2 no Rio de Janeiro. Pensou consigo por um instante, sem muitos dramas
pra falar a verdade: virá?!
Não, não entrou ninguém para encontrá-la, porque simplesmente, ficar no
computador parecia muito mais seguro ao seu pretendente. Naquele dia mesmo
decidiu que mudaria de e-mail, pediria ao chefe pra escrever em outra coluna e
jamais sobre mulheres de novo. Pensava ele que certamente não gostaria dela,
certamente não daria certo e não estava disposto a magoar-se. Nem pensar em
namoros por um bom tempo, dizia ele a todos.
Mas, à noite, quando voltava do trabalho, não resistia, corria para o
computador e ficava lá com suas namoradas virtuais, que em geral não duravam
mais que uma semana, pois, bastava a sugestão de um encontro e simplesmente a
resposta lhe fugia. Tornou-se um namorado virtual, sem chance de se materializar,
ao menos por enquanto.
Ela? Como ficou? Ah, isto é uma outra história, talvez com
menos solidão do que você imagina.
Natália Barros, março
de 2006
quinta-feira, 21 de junho de 2012
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